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Medo de Tomar Remédio Psiquiátrico: Esclarecimentos Necessários para a Mente Moderna
Olá. Sou o Dr. Marcio Candiani, CRMMG 33035, RQE 10740. Como psiquiatra em Belo Horizonte, especialista em TDAH e Autismo – tanto em crianças quanto em adultos –, tenho uma perspectiva peculiar sobre a mente humana e suas peculiaridades.
E, acredite, uma das peculiaridades mais persistentes que observo em meu consultório, situado na Rua Rio Grande do Norte, 23, sala 1001, na efervescente região hospitalar da Santa Efigênia, é o medo.
Não o medo de aranha, nem o de altura, mas o medo de tomar remédio psiquiátrico. Se você esqueceu o que ia fazer ao chegar no final deste parágrafo, ou se a ideia de “tomar um remédio para a cabeça” já lhe causa um certo arrepio, este artigo é definitivamente para você.
É compreensível. O universo da saúde mental é vasto, complexo e, para muitos, envolto em um véu de mistério e desinformação. A medicação psiquiátrica, em particular, é um campo minado de mitos, preconceitos e, sejamos honestos, algumas histórias de horror que circulam por aí.
Mas a verdade, como sempre, é mais matizada, mais interessante e, ironicamente, muito menos assustadora do que a ficção. Meu objetivo aqui é desarmar essa mina terrestre, oferecendo clareza e evidências, porque a ignorância, esta sim, é um risco real.
Um Breve Tour Pela História: De Onde Viemos e Por Que Ainda Temos Medo
Foi somente no século XX, especialmente a partir da década de 1950, com a descoberta dos primeiros psicofármacos, que a psiquiatria começou sua revolução. A clorpromazina, o primeiro antipsicótico, transformou a realidade dos hospitais psiquiátricos, permitindo que muitos pacientes voltassem para suas casas e famílias.
Depois vieram os antidepressivos, os estabilizadores de humor, os ansiolíticos, e mais tarde, os estimulantes para TDAH, entre outros. Essa evolução é um testemunho da ciência em ação, mas o estigma, ah, o estigma é uma criatura muito mais resiliente que qualquer vírus, e persiste, alimentando o medo e a desconfiança.
O Medo Tem Raízes Profundas: Mitos, Mídia e Desinformação
O temor em relação aos remédios psiquiátricos não nasce do nada. Ele é cultivado em um terreno fértil de diversas fontes:
- Mídia e Ficção: Novelas, filmes e séries frequentemente retratam pessoas medicadas psiquiatricamente de forma estereotipada: zumbis, viciados, ou indivíduos que perdem completamente sua essência. A realidade, como quase sempre, é bem mais tediosa e menos dramática.
- Experiências Negativas (Próprias ou de Terceiros): Sim, efeitos colaterais existem. Sim, nem todo tratamento funciona para todos na primeira tentativa. E sim, um acompanhamento inadequado pode gerar frustração e sofrimento. Estas experiências, quando mal geridas, se tornam histórias que alimentam o receio coletivo.
- Estigma Social: Há uma pressão velada (e às vezes explícita) para “ser forte”, “resolver sozinho” os problemas da mente. Admitir a necessidade de medicação é, para muitos, admitir uma fraqueza inaceitável. Isso é particularmente forte em algumas culturas e comunidades em Belo Horizonte, onde a busca por ajuda psicológica ou psiquiátrica ainda é vista com desconfiança, apesar da alta concentração de profissionais de saúde na capital.
- Falta de Conhecimento e Compreensão: Como os medicamentos funcionam? O que eles fazem no cérebro? A ausência de respostas claras para essas perguntas transforma o desconhecido em algo assustador.
- Preocupações Reais, Mas Mal Compreendidas: Medo de dependência, de “perder a personalidade”, de ter que tomar medicação para sempre. Essas são questões legítimas que merecem ser abordadas com seriedade e informação precisa.
Neurociência para Leigos (e Céticos): Como os Remédios Psiquiátricos Realmente Funcionam
A ideia de que uma pílula pode alterar sua mente parece mágica ou perigosa, dependendo do seu nível de cinismo. Mas não há mágica, apenas química. Nosso cérebro é uma orquestra complexa de bilhões de neurônios que se comunicam através de mensageiros químicos chamados neurotransmissores.
Desequilíbrios, deficiências ou excessos desses neurotransmissores são frequentemente associados a transtornos mentais.
Os Maestros Químicos do Cérebro
- Serotonina: O “neurotransmissor do bem-estar”. Relacionado ao humor, sono, apetite e regulação da dor. Baixos níveis são associados à depressão e ansiedade.
- Dopamina: O “neurotransmissor da recompensa e motivação”. Essencial para o prazer, atenção, aprendizado e movimento. Desequilíbrios estão ligados a TDAH, psicose e doença de Parkinson.
- Noradrenalina: Associada à atenção, alerta, energia e resposta de “luta ou fuga”. Desequilíbrios podem contribuir para ansiedade, depressão e TDAH.
- GABA (Ácido Gama-Aminobutírico): O principal neurotransmissor inibitório. Atua como um “freio” no cérebro, acalmando a atividade neural. Níveis baixos estão relacionados à ansiedade e insônia.
- Glutamato: O principal neurotransmissor excitatório. Essencial para o aprendizado e a memória. Excesso pode ser tóxico para os neurônios.
As Classes de Medicamentos e Seus Mecanismos de Ação (Simplificado, é claro)
Os remédios psiquiátricos não são balas mágicas que consertam tudo. Eles atuam em sistemas específicos, buscando restaurar o equilíbrio neuroquímico. É como ajustar os instrumentos de uma orquestra para que a sinfonia volte a soar harmoniosa.
- Antidepressivos: Aumentam a disponibilidade de serotonina e/ou noradrenalina (e, em alguns casos, dopamina) no cérebro, melhorando o humor, reduzindo a ansiedade e promovendo o bem-estar. Não causam euforia em quem não precisa deles, apenas “ajustam” o que está desregulado.
- Ansiolíticos: Geralmente atuam no sistema GABAérgico, potencializando a ação do GABA para diminuir a atividade cerebral excessiva, induzindo calma e relaxamento. Os benzodiazepínicos, por exemplo, são eficazes, mas seu uso deve ser monitorado devido ao risco de dependência se usados incorretamente.
- Estabilizadores de Humor: Utilizados principalmente no Transtorno Bipolar, ajudam a regular as flutuações extremas de humor, prevenindo episódios maníacos e depressivos. Seus mecanismos são diversos, envolvendo desde canais iônicos até sistemas de neurotransmissores.
- Antipsicóticos: Atuam principalmente no sistema dopaminérgico, modulando a atividade da dopamina, o que é crucial no tratamento de condições como esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. Alguns também têm ação em receptores de serotonina.
- Estimulantes (para TDAH): Aqui entramos em um território que conheço bem. Para o TDAH, medicamentos como metilfenidato e anfetaminas não “acalmam” a criança ou o adulto.
- Pelo contrário, eles aumentam a disponibilidade de dopamina e noradrenalina em áreas cerebrais relacionadas à atenção, impulsividade e controle executivo (o córtex pré-frontal). Isso, de fato, organiza o funcionamento cerebral, permitindo que a pessoa com TDAH consiga focar, planejar e inibir impulsos de forma mais eficaz. É como um óculos para o cérebro que tem dificuldade em focar.
TDAH e Autismo: Por Que a Medicação Não É Fraqueza, Mas Ferramenta
Como especialista nessas áreas, vejo diariamente o impacto devastador que a falta de tratamento pode ter na vida das pessoas. Em muitos casos, a medicação não é uma opção secundária, mas uma peça fundamental do quebra-cabeça.
O TDAH: Mais Que Desatenção e Inquietação
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento crônico que afeta milhões de pessoas, de crianças a adultos. O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição, Texto Revisado) descreve o TDAH através de dois domínios principais de sintomas:
A. Desatenção:
Pelo menos seis (ou cinco para adultos/adolescentes mais velhos) dos seguintes sintomas, persistentes por pelo menos 6 meses, em um grau inconsistente com o nível de desenvolvimento e que impacta negativamente atividades sociais e acadêmico/profissionais:
- Frequentemente não consegue prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em tarefas escolares, no trabalho ou em outras atividades.
- Frequentemente tem dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas.
- Frequentemente parece não escutar quando lhe falam diretamente.
- Frequentemente não segue instruções e não termina tarefas escolares, afazeres ou deveres no local de trabalho (não por comportamento de oposição ou falha em compreender as instruções).
- Frequentemente tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.
- Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se engajar em tarefas que exigem esforço mental prolongado (como tarefas escolares ou de casa).
- Frequentemente perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (ex: brinquedos, trabalhos escolares, lápis, livros ou ferramentas).
- Frequentemente é facilmente distraído por estímulos externos.
- Frequentemente é esquecido em atividades diárias.
B. Hiperatividade e Impulsividade:
Pelo menos seis (ou cinco para adultos/adolescentes mais velhos) dos seguintes sintomas, persistentes por pelo menos 6 meses, em um grau inconsistente com o nível de desenvolvimento e que impacta negativamente atividades sociais e acadêmico/profissionais:
- Frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira.
- Frequentemente levanta-se da cadeira em situações em que se espera que permaneça sentado (ex: em sala de aula, no escritório ou em outras situações que exigem que se permaneça no lugar).
- Frequentemente corre ou escala em situações em que isso é inapropriado (em adultos, pode ser limitado a sensações subjetivas de inquietação).
- Frequentemente é incapaz de brincar ou se engajar em atividades de lazer silenciosamente.
- Frequentemente está “a mil” ou age como se estivesse “ligado a um motor”.
- Frequentemente fala em excesso.
- Frequentemente emite respostas antes que as perguntas tenham sido completamente formuladas.
- Frequentemente tem dificuldade em esperar a sua vez (ex: em filas).
- Frequentemente interrompe ou se intromete em conversas ou jogos dos outros.
Além disso, vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade devem estar presentes antes dos 12 anos de idade, e os sintomas devem estar presentes em dois ou mais ambientes (ex: em casa, na escola/trabalho, com amigos ou parentes, em outras atividades). E, claro, existe um prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico ou profissional.
Em Belo Horizonte, muitos pacientes chegam ao consultório com uma trajetória de frustrações: dificuldades na escola, demissões, problemas de relacionamento, ansiedade e depressão secundárias ao TDAH não tratado.
Nesses casos, a medicação estimulante, ao otimizar a função executiva, não só melhora a atenção e o controle da impulsividade, mas também pode ser a chave para o indivíduo conseguir engajar-se em terapia, organizar sua vida, aprender novas habilidades e, finalmente, ter uma chance de alcançar seu potencial. Dizer que é “apenas uma pílula” ignora o profundo impacto transformador que ela pode ter.
Autismo (TEA): Compreendendo a Diversidade Neural
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é outro transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação social e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. O DSM-5-TR detalha esses critérios:
A. Déficits Persistentes na Comunicação Social e na Interação Social, manifestados por todos os três itens seguintes (atuais ou históricos):
- Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de uma abordagem social anormal e falha em ter uma conversa normal a uma redução no compartilhamento de interesses, emoções ou afetos, e falha em iniciar ou responder a interações sociais.
- Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidades no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso de gestos, a uma total ausência de expressões faciais e comunicação não verbal.
- Déficits no desenvolvimento, manutenção e compreensão de relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldades em ajustar o comportamento para se adequar a diferentes contextos sociais a dificuldades em compartilhar brincadeiras imaginativas ou fazer amigos, à ausência de interesse em pares.
B. Padrões Restritos e Repetitivos de Comportamento, Interesses ou Atividades, manifestados por pelo menos dois dos seguintes itens (atuais ou históricos):
- Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (ex: estereotipias motoras simples, enfileirar brinquedos ou virar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).
- Insistência na mesmice, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (ex: angústia extrema por pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões de pensamento rígidos, rituais de saudação, necessidade de seguir o mesmo caminho ou comer a mesma comida todos os dias).
- Interesses altamente restritos e fixos que são anormais em intensidade ou foco (ex: forte apego ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverantes).
- Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum em aspectos sensoriais do ambiente (ex: aparente indiferença à dor/temperatura, reação adversa a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento).
Os sintomas devem estar presentes no período de desenvolvimento inicial, causar prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes e não são mais bem explicados por deficiência intelectual global ou atraso global do desenvolvimento.
No TEA, a medicação não “cura” o autismo. Isso precisa ser dito de forma cristalina. O autismo é uma forma diferente de processar o mundo, não uma doença a ser erradicada. No entanto, o autismo frequentemente coexiste com outras condições que podem ser muito debilitantes, como ansiedade severa, irritabilidade, agressividade, insônia, TDAH comórbido ou depressão.
Nestes casos, a medicação psiquiátrica pode ser um suporte valioso. Ela pode ajudar a gerenciar esses sintomas associados, permitindo que a pessoa com autismo se beneficie mais das terapias comportamentais, consiga se comunicar melhor, durma mais tranquilamente e, consequentemente, tenha uma qualidade de vida significativamente melhor. Ignorar essa possibilidade seria negligenciar o sofrimento. É uma decisão que sempre deve ser tomada em conjunto com uma equipe multidisciplinar e a família, com muito cuidado e atenção aos detalhes.
Desmistificando os Monstros: Respostas às Preocupações Mais Comuns
Agora, vamos derrubar alguns dos pilares do medo.
“Vou ficar viciado/dependente do remédio?”
A palavra “vício” é carregada de estigma. É mais preciso falar em “dependência física” e “dependência psicológica”.
- Dependência Física: Alguns medicamentos, como os benzodiazepínicos (ansiolíticos tipo “tarja preta”), podem causar sintomas de abstinência se interrompidos abruptamente após uso prolongado. Isso não é “vício” no sentido de busca compulsiva pela droga, mas sim uma adaptação fisiológica do corpo à presença da substância. A retirada deve ser sempre gradual e sob orientação médica.
- Tolerância: O corpo pode se acostumar com uma dose, exigindo mais para o mesmo efeito. Isso é comum em muitas medicações e não significa “vício”.
- Medicamentos para TDAH: Embora os estimulantes tenham potencial de abuso em indivíduos sem TDAH, quando usados por pessoas com o transtorno, sob prescrição e acompanhamento adequado, o risco de desenvolver “vício” é baixo. Eles não causam a “euforia” que drogas de abuso proporcionam, mas sim um funcionamento mais organizado.
- Antidepressivos e Antipsicóticos: Não causam dependência no sentido de vício. Podem ocorrer “síndromes de descontinuação” se parados abruptamente, mas isso é diferente de dependência.
A chave é o acompanhamento profissional. Seu psiquiatra sabe como prescrever e monitorar para minimizar esses riscos.
“Vou perder minha personalidade, virar um zumbi?”
Essa é talvez a preocupação mais persistente, e a mais infundada. O objetivo do tratamento psiquiátrico não é transformar você em outra pessoa. É, pelo contrário, ajudá-lo a ser mais você, removendo as barreiras que a doença mental impõe.
Se a depressão o impede de sentir prazer, o TDAH o impede de focar, ou a ansiedade o paralisa, a medicação busca restaurar sua capacidade de vivenciar emoções, de pensar com clareza e de agir com propósito. O “zumbi” que vemos na mídia é uma caricatura irresponsável. Um tratamento bem ajustado, com a dose e o medicamento corretos, geralmente resulta em uma melhora da qualidade de vida, não em uma perda de si mesmo.
“É um atalho, não resolve o problema de verdade?”
Essa crítica é frequentemente feita por quem não entende a complexidade das doenças mentais. Dizer que a medicação é um “atalho” é como dizer que um diabético tomando insulina está pegando um “atalho” para controlar sua glicemia. Muitas condições psiquiátricas têm uma base biológica significativa.
A medicação não ignora seus problemas de vida; ela pode criar o espaço mental e emocional para que você possa enfrentá-los. Uma pessoa com depressão profunda, sem energia e com pensamentos suicidas, dificilmente terá sucesso na psicoterapia. A medicação pode levantar essa pessoa da cama, dar-lhe a energia e a clareza para então trabalhar com um terapeuta nas raízes emocionais e comportamentais de seus problemas. É uma ferramenta, muitas vezes indispensável, para abrir portas, não para pular etapas.
“Os efeitos colaterais são terríveis e inevitáveis?”
Efeitos colaterais existem. Seria antiético dizer o contrário. Todo medicamento tem potencial para efeitos adversos. No entanto, a maioria dos efeitos colaterais dos psicofármacos é leve, transitória e gerenciável. Náuseas leves, tontura inicial, alterações no sono ou no apetite são comuns nas primeiras semanas.
Raramente, podem ocorrer efeitos mais sérios, mas é justamente para isso que serve o acompanhamento médico rigoroso. Seu psiquiatra irá monitorar, ajustar doses, ou mudar a medicação se necessário. O benefício do tratamento precisa sempre superar o incômodo dos efeitos colaterais. E para muitos, o sofrimento causado pela doença não tratada é infinitamente pior do que qualquer efeito colateral do remédio.
O Processo de Decisão e a Importância da Parceria Terapêutica
Decidir iniciar um tratamento medicamentoso é uma escolha pessoal e informada. Ninguém deve ser forçado. Mas essa escolha deve ser baseada em fatos, não em medos infundados.
O Caminho da Avaliação e Tratamento:
- Avaliação Médica Detalhada: Um psiquiatra qualificado fará uma anamnese completa, histórico médico e familiar, e poderá solicitar exames complementares para descartar outras causas para os sintomas. Em Belo Horizonte, temos bons profissionais, mas a busca por um especialista em sua área de preocupação (como TDAH ou Autismo) pode fazer toda a diferença.
- Diagnóstico Preciso: Um diagnóstico correto, alinhado aos critérios do DSM-5-TR, é a base para qualquer plano de tratamento.
- Discussão Aberta: Seu psiquiatra deve explicar o diagnóstico, as opções de tratamento (incluindo ou não medicação), como o remédio funciona, os potenciais benefícios e os possíveis efeitos colaterais. Todas as suas dúvidas e medos devem ser endereçados.
- Acompanhamento Rigoroso: O tratamento medicamentoso não é uma receita e “te vejo em 6 meses”. Requer monitoramento contínuo, especialmente nas fases iniciais, para ajustar a dose, observar a eficácia e manejar efeitos colaterais.
- Abordagem Integrativa: A medicação é frequentemente mais eficaz quando combinada com psicoterapia (seja TCC, terapia focada em esquemas, etc.), mudanças no estilo de vida (exercício físico, alimentação, sono) e outras intervenções não farmacológicas. É um esforço conjunto.
A Realidade em Belo Horizonte: Desafios e Oportunidades
Em uma metrópole vibrante como Belo Horizonte, os desafios de saúde mental são tão diversos quanto sua população. Observo que muitos pacientes aqui enfrentam pressões significativas – seja no ambiente de trabalho cada vez mais competitivo, na intensidade do tráfego (que já rende memes e crises de ansiedade), ou na busca por uma qualidade de vida que muitas vezes se choca com a realidade da capital mineira.
O estigma, embora em declínio, ainda se manifesta, tornando a decisão de buscar ajuda e iniciar um tratamento medicamentoso ainda mais difícil.
A região hospitalar da Santa Efigênia, onde meu consultório está localizado, é um polo de saúde em BH. A concentração de hospitais, clínicas e profissionais facilita o acesso físico, mas a barreira maior é, muitas vezes, a interna.
Pacientes de todas as partes de Minas Gerais vêm a Belo Horizonte em busca de especialistas, mas a informação e a desmistificação ainda são as ferramentas mais poderosas para vencer o medo. É por isso que artigos como este são tão importantes para a nossa comunidade mineira.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Remédios psiquiátricos causam dependência?
Nem todos. Alguns, como os benzodiazepínicos (ansiolíticos), podem causar dependência física se usados por tempo prolongado e interrompidos abruptamente. Antidepressivos e antipsicóticos não causam dependência no sentido de vício. O risco é sempre avaliado e monitorado pelo seu psiquiatra.
2. Vou ter que tomar remédio para sempre?
Não necessariamente. A duração do tratamento varia muito. Para algumas condições crônicas, como o Transtorno Bipolar ou certas formas de Esquizofrenia, o uso contínuo pode ser necessário. Para outras, como episódios depressivos ou de ansiedade, o tratamento pode ser por um período específico. Para TDAH, a medicação geralmente é utilizada enquanto o impacto dos sintomas é significativo na vida da pessoa. A decisão de parar sempre é feita em conjunto com o médico.
3. Posso beber álcool tomando remédio psiquiátrico?
Na grande maioria dos casos, não é recomendado. O álcool interage com muitos medicamentos psiquiátricos, potencializando efeitos sedativos, aumentando o risco de efeitos colaterais ou diminuindo a eficácia do tratamento. Sempre discuta o consumo de álcool com seu psiquiatra.
4. O que fazer se esquecer uma dose?
A orientação varia de acordo com o medicamento e o tempo de esquecimento. Em geral, se o esquecimento for recente (algumas horas), você pode tomar a dose.
Se estiver muito próximo da próxima dose, é melhor pular a esquecida e seguir o horário normal, sem dobrar a dose. Nunca ajuste a dose por conta própria. Contate seu médico para instruções específicas.
5. Como saber se o remédio está funcionando?
A melhora dos sintomas nem sempre é imediata e pode ser gradual. Mantenha um diário de sintomas e observe mudanças em seu humor, sono, energia, concentração e capacidade de lidar com o estresse. Comunicação regular com seu psiquiatra é crucial para avaliar a eficácia e fazer os ajustes necessários.
6. Posso dirigir tomando remédio psiquiátrico?
No início do tratamento ou após ajustes de dose, alguns medicamentos podem causar sonolência ou tontura. Nesses casos, a direção deve ser evitada. Uma vez que seu corpo se adapta e os efeitos colaterais diminuem ou desaparecem, a direção geralmente é segura. Sempre consulte seu médico sobre isso.
Conclusão: O Conhecimento é a Melhor Cura para o Medo
O medo de tomar remédio psiquiátrico é uma barreira real para muitas pessoas que poderiam se beneficiar enormemente do tratamento.
É um medo que, como vimos, é alimentado por uma mistura de desinformação histórica, estigma social e preocupações legítimas, mas muitas vezes exageradas. No entanto, a psiquiatria moderna, baseada em décadas de pesquisa neurocientífica, oferece ferramentas eficazes para aliviar o sofrimento de diversas condições.
Como Dr. Marcio Candiani, meu compromisso é com a clareza, a ética e o cuidado individualizado. A decisão de medicar nunca é trivial; ela envolve uma avaliação cuidadosa, uma discussão franca e um acompanhamento contínuo. Não há promessas de curas milagrosas – na medicina, a única promessa que posso fazer é a do empenho e da busca pelo melhor caminho para cada paciente.
Se você ou alguém que você conhece está hesitando em buscar ajuda ou iniciar um tratamento, lembre-se: informação é poder. Procure um profissional qualificado, faça suas perguntas e tome decisões baseadas em evidências, não em preconceitos. Sua mente merece ser tratada com o mesmo cuidado e respeito que qualquer outra parte do seu corpo.
Seja em Belo Horizonte, na agitação da Santa Efigênia, ou em qualquer outro canto do mundo, a saúde mental é um direito e uma necessidade. Não deixe que o medo te impeça de buscar o bem-estar que você merece.
Dr. Marcio Candiani
CRMMG 33035 | RQE 10740
Psiquiatra especialista em TDAH e Autismo (Infantil e Adulto)
Rua Rio Grande do Norte, 23, sala 1001, Santa Efigênia, Belo Horizonte – MG
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