Resumo rápido: o HCL-32 (Hypomania Checklist) é uma escala de triagem para sintomas de hipomania, criada por Jules Angst em 2005 e validada no Brasil pelo GRUDA, do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP. Existem duas versões nesta página: a autoavaliação, respondida pelo próprio paciente, e o relato de familiar, respondido por quem convive de perto com a pessoa. Nenhuma das duas fecha diagnóstico sozinha: elas indicam se vale a pena investigar mais a fundo com um psiquiatra.
Sou Márcio Candiani, psiquiatra da infância, adolescência e vida adulta em Belo Horizonte. No consultório, uso o HCL-32 como parte da investigação de sintomas de humor elevado, principalmente quando há suspeita de transtorno bipolar tipo II ou ciclotimia, quadros em que os episódios de hipomania costumam passar despercebidos por anos. Se você ainda não sabe exatamente o que caracteriza a hipomania, escrevi uma explicação mais detalhada em Hipomania: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento. Nesta página o foco é prático: os dois questionários completos, prontos para responder agora, e o que fazer com o resultado.
Antes de começar: nenhum questionário online, deste ou de qualquer outro site, substitui uma avaliação clínica. O HCL-32 é um instrumento de triagem: ele ajuda a organizar informações e decidir se vale a pena buscar avaliação profissional, mas quem confirma ou descarta um diagnóstico é sempre um psiquiatra, em consulta presencial.
Duas versões, dois pontos de vista
A hipomania tem uma particularidade que complica a autoavaliação: durante o episódio, a pessoa costuma se sentir bem, produtiva e confiante, e não necessariamente percebe aquilo como um problema. Muitos pacientes só reconhecem o padrão anos depois, ao olhar para trás, ou nunca chegam a reconhecer sozinhos. Por isso o HCL-32 existe em duas versões: uma para o próprio paciente responder, pensando em como costuma se sentir nos seus períodos “para cima”, e outra para um familiar, parceiro ou parceira responder, descrevendo o que observou de fora. As duas versões perguntam essencialmente a mesma coisa, mas a partir de ângulos diferentes, e comparar as respostas costuma trazer informação que nenhuma das duas sozinha traria.
Origem do HCL-32 e validação no Brasil
O HCL-32 foi desenvolvido em 2005 por Jules Angst e colaboradores como uma ferramenta simples e de uso livre para rastrear sintomas hipomaníacos em pessoas com quadros depressivos, já que uma parcela relevante dos pacientes tratados como depressão unipolar tem, na verdade, transtorno bipolar não identificado. O instrumento foi traduzido e validado em dezenas de países. No Brasil, a versão de autoavaliação (HCL-32-R1) está em processo de validação conduzido por Moreno DH, Soares OT e colaboradores do GRUDA (Grupo de Doenças Afetivas) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). A versão para familiares apresentada aqui é uma adaptação da mesma escala, reorganizada para relato de terceiros, pensada para uso complementar na triagem clínica.
Teste 1: Autoavaliação HCL-32
Pense em um período em que você esteve num estado visivelmente “para cima”: mais energia, mais confiança, mais ativo ou irritável do que o seu normal. Responda a todas as 32 perguntas pensando em como você se sentia nesses períodos, independente de como você está hoje. Não é preciso informar nome, e-mail ou qualquer dado pessoal: o resultado aparece na hora, só neste navegador.
Como interpretar sua pontuação na autoavaliação
O próprio instrumento indica que uma pontuação acima de 14 respostas “Sim” está na faixa considerada indicativa de hipomania. É uma referência do instrumento original, não um corte fechado: sensibilidade e especificidade variam conforme a população estudada, e uma pontuação abaixo de 14 não descarta o problema, principalmente se os episódios foram curtos, leves ou pouco valorizados pela própria pessoa. Pontuação alta também não fecha diagnóstico de transtorno bipolar sozinha: ela indica que vale a pena investigar a história de humor com mais profundidade numa consulta, olhando duração dos episódios, impacto na vida e presença ou não de quadros depressivos associados.
Por que pedir a um familiar para responder também?
Na hipomania, diferente da mania, a pessoa geralmente mantém contato com a realidade e continua funcionando, o que torna mais fácil não perceber o próprio estado como algo fora do comum. Muita gente descreve esses períodos como “meus dias bons” e só reconhece o padrão quando alguém de fora aponta a mudança. É exatamente aí que o relato de um familiar, parceiro ou parceira ajuda: ele traz uma segunda perspectiva sobre a mesma fase, descrita por quem observou de fora, sem o filtro de “isso era só eu produtivo”.
Teste 2: Relato de familiar
Este questionário é para ser respondido por um familiar, parceiro(a) ou pessoa próxima do paciente, não pelo próprio paciente. Tente lembrar de um período em que a pessoa esteve visivelmente “para cima”: mais energia, mais ativa, mais animada ou mais irritável do que o padrão dela. Responda pensando em como ela se comportava durante essas fases.
O que fazer depois de preencher as duas escalas
O ideal é responder às duas versões, cada uma pelo seu respondente certo, e levar os dois resultados para a consulta psiquiátrica, junto com informações sobre há quanto tempo esses períodos acontecem, quanto tempo costumam durar e como eles impactaram trabalho, finanças e relações. Se você quiser uma versão para imprimir ou preencher com calma antes da consulta, com perguntas adicionais sobre duração e impacto que não couberam aqui, montei uma versão completa das duas escalas: página com a autoavaliação e o relato de familiar completos, prontos para imprimir.
Se o resultado de uma das escalas chamou sua atenção, ou se você já desconfia de oscilações de humor há algum tempo, o próximo passo é conversar com um psiquiatra sobre isso.
Perguntas frequentes
O HCL-32 diagnostica transtorno bipolar?
Não. É uma escala de triagem para sintomas de hipomania. Uma pontuação alta indica que vale a pena investigar mais, não que existe um diagnóstico fechado. O diagnóstico de transtorno bipolar exige avaliação clínica presencial com um psiquiatra.
Qual a pontuação de corte da autoavaliação?
O próprio instrumento cita 14 ou mais respostas “Sim” como faixa indicativa de hipomania, mas esse número é uma referência, não um ponto de corte absoluto para qualquer pessoa.
A versão para familiares tem um ponto de corte?
Não. A adaptação para relato de terceiros não tem um ponto de corte validado publicado. O total de respostas “Sim” serve como apoio à conversa clínica, não como resultado diagnóstico.
Posso usar este teste para me automedicar ou me autodiagnosticar?
Não. Estabilizadores de humor e outros medicamentos usados no transtorno bipolar exigem indicação e acompanhamento médico. Um resultado de triagem, mesmo alto, não é uma prescrição nem uma confirmação diagnóstica.
Qual a diferença entre hipomania e mania?
A hipomania é mais branda e mais curta: a pessoa mantém contato com a realidade e geralmente continua funcionando, às vezes até com desempenho aumentado. A mania é mais intensa, dura mais tempo, prejudica claramente o funcionamento e pode vir acompanhada de sintomas psicóticos, exigindo internação em muitos casos.
Referências: Angst, J. et al. (2005). The HCL-32: towards a self-assessment tool for hypomanic symptoms in outpatients. Journal of Affective Disorders. Moreno, D. H., Soares, O. T. e colaboradores, GRUDA, Instituto de Psiquiatria, HC-FMUSP, validação da versão brasileira do HCL-32-R1 (em andamento). Versão para relato de familiares: adaptação do HCL-32 para uso em triagem clínica complementar.
Dr. Marcio Candiani
Psiquiatra
CRMMG 33035 / RQE 10740
Especialista em TDAH e Autismo (Infantil e Adulto)
Rua Rio Grande do Norte, 23, sala 1001, Santa Efigênia, Belo Horizonte, MG